10.3.09

"Epitafio" en portugués

El poeta David Teles Pereira, junto a Luís Filipe Parrado, trabaja en Portugal para difundir la obra de jóvenes poetas de España. Este poema forma parte del libro Los hijos de los hijos de la ira (Hiperión, 2006) y se publicará en el número 3 de la revista portuguesa "Criatura". Gracias a David y a Luís por su labor y por permitirme publicar aquí su traducción. Sólo me arrepiento de no saber más portugués. B.C.


Epitáfio

(A verdade do vigarista)

No soy un alma pura ni soy un alma impía
Antonio Gamoneda, pai.


O meu sangue esteve em Somme, esteve em Ypres.
Entre mais de um milhão de toneladas
de carne um tal Frank Mead,
meu bisavô.
Por alguma razão que desconheço
(talvez o campo cheirasse demasiado
a indeterminação, a juventude
vendida a baixo preço à História Universal
tomo W, página setenta,
ou talvez naquele mês o céu cinzento
do campo de batalha lhe parecesse
especialmente cinzento e deprimente
ou o ritmo incessante das botas
o atormentasse tanto o tempo todo
– já não sei a razão, a verdade é esta)
ele decidiu morrer certa manhã.
Não obstante a guerra, que assassina
sempre qualquer desejo,
não quis fazer-lhe a vontade e ele regressou
vivo. E nada sabe sobre o amor... Bom,
imagino que já tenha lido
a citação do poeta. Nada sabe
e tampouco alguma coisa saberá o seu sangue,
noventa anos mais tarde, se decide
sentar-se com os pés sobre o abismo
dessa cidade do sul que está na moda
entre os suicidas mais estetas
e não se atira.
Esta é a verdade,
leitor, sou um farsante, um aldrabão,
um vigarista: eu escrevo simplesmente
porque o meu sangue esteve em Somme, em Ypres,
e temo a morte um pouco mais
que a crença vaga de que Deus
não fez a vontade ao Frank,
como tampouco
me vai fazer
a vontade se eu decidir
no mudo fragor da minha batalha
deixar de te amar tanto o tempo todo.



tradução de David Teles Pereira e Luís Filipe Parrado

www.omelhoramigo.blogspot.com

traducción de David Teles Pereira y Luís Filipe Parrado

www.omelhoramigo.blogspot.com


1 comment:

cristina said...

Me gusta mucho, y además no pierde ni pizca del ritmo de la versión original. Sólo un poquito en un verso.
Saludos!!